
Ontem, 19/09/2012, mais uma fraude gnóstica celebrada por teólogos liberais
militantes ganhou repercussão na mídia internacional. Trata-se da
divulgação de um papiro copta, datado do quarto século d.C., que poderia
estar sugerindo – como outras obras gnósticas do segundo século – que
Jesus foi casado.
O texto apócrifo, composto por oito linhas, está todo fragmentado, o
que dificulta qualquer tentativa de interpretação, como destaca a
própria porta-voz da descoberta, a historiadora e cientista da religião
Karen Leigh King, da Universidade de Harvard, nos EUA. Ela, porém, que é
defensora do Jesus casado do gnosticismo, enfatiza os dizeres da quarta
linha, na qual se lê apenas “Jesus disse a eles: Minha mulher”, sendo
que a continuação não pode ser lida. Na linha seguinte, já se lê: “Ela
estará preparada para ser minha discípula”.
Como afirma André Chevitarese, professor do Instituto de História da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, em matéria no site da revista
Veja sobre a descoberta do referido papiro, “usar esse fragmento para
dizer que Jesus era casado é sensacionalismo. Seria fazer algo parecido
com o que Dan Brown fez em ‘O Código Da Vinci’, onde usou trechos do
Evangelho de Felipe em copta para dizer que Jesus beijou Maria Madalena.
De novo, esse evangelho diz mais sobre as vivências dessa comunidade do
que sobre o Jesus real”.
Karen Leigh King, 58 anos, é discípula do teólogo da libertação
norte-americano Harvey Cox, propugnadora da teologia feminista nos EUA e
membro do grupo Seminário de Jesus, criado em 1985 tendo como objetivo
desconstruir o Jesus da Bíblia, defendendo que os Evangelhos devem ser
vistos como cheios de invenções sobre a vida de Jesus; que os milagres
de Jesus nunca ocorreram porque milagres não podem acontecer; que Jesus
nunca ressuscitou; que foi casado com Maria Madalena, com base nos
evangelhos gnósticos; que era filho de um adultério de Maria com um
soldado romano; e que os evangelhos gnósticos são mais importantes do
que os relatos canônicos. Ora, os evangelhos gnósticos são fraudes
criadas pelos gnósticos a partir do segundo século da Era Cristã para
enganar os cristãos, mas que foram denunciadas ainda em seu nascedouro
por Pais da Igreja, como o bispo Irineu de Lyon (130-202dC).
Mais recentemente, em 2004, os militantes do Seminário de Jesus
enfatizaram o chamado “Evangelho de Judas”, outro texto gnóstico,
escrito aproximadamente em 180 d.C., e que é uma das fraudes gnósticas
denunciadas nominalmente por Irineu em sua clássica obra “Contra as
Heresias”.
“Eles produzem uma dessas histórias fictícias, a qual chamam de
‘Evangelho de Judas’”, escreveu Irineu no segundo século d.C. Lembrando
ainda que Irineu aprendeu aos pés de Policarpo, que por sua vez foi
discípulo direto do apóstolo João, um dos doze apóstolos de Cristo.
Os gnósticos eram uma corrente filosófica forte nos primeiros séculos
da Era Cristã, mas que não tinha o apoio nem do judaísmo nem do
cristianismo. Suas crenças não têm base bíblica, nem no Antigo nem no
Novo Testamento. Essa seita caracterizava-se por misturar os ensinos
cristãos com filosofias pagãs e tradições judaicas. Os apóstolos Paulo e
João lutaram contra esse movimento. Escrevendo sobre os gnósticos,
Paulo afirma: “Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por
meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens,
segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Colossenses 2.8). O
motivo de sua preocupação, afirma ele, era “para que ninguém vos engane
com palavras persuasivas”.
Os gnósticos são assim chamados porque seu objetivo, segundo afirmavam,
era a “gnosis”, isto é, o conhecimento. Eles criam na salvação pelo
conhecimento. Os gnósticos adotavam conhecimentos místicos com forte
influência da doutrina pitagórica, do platonismo, do Culto de Mitras
(mitraísmo) e até mesmo de ensinamentos oriundos do Antigo Egito e da
Mesopotâmia (zoroastrismo e mazdeísmo).
Os gnósticos criam que o conhecimento, que denominavam de “gnosis”,
podia ser adquirido por meio de transes, quando “o espírito fica livre
para circular pelas diversas esferas, assim como pelos sonhos”. Eles
criam que o mundo material e o corpo humano foram criados por espíritos
inferiores ou até mesmo diabólicos, por isso só a busca por uma
sabedoria esotérica ajudaria alguns a libertar-se da “escravidão do
corpo”. Por isso, os gnósticos criam que Jesus não era Deus feito carne,
mas um espírito possuindo um corpo.
Para sustentar seus ensinos e ganhar apoio entre cristãos, os gnósticos
escreveram algumas fraudes, como o Evangelho de Maria, sobre Maria
Madalena; e o Evangelho de Pedro, todos rejeitados pela Igreja
Primitiva. Eles tentavam vender esses livros como escritos do primeiro
século, quando, como se sabe, são obras produzidas no segundo, terceiro e
quarto séculos. Na época, quase ninguém caiu nessa história, tendo
essas fraudes e seus criadores sido facilmente identificados ainda em
seus dias, e suas criações sido solenemente desprezadas pelos cristãos
daquele período. Essas fraudes sequer chegaram a ter uma pequena
aceitação entre os cristãos.
Diferentemente desses evangelhos apócrifos, confeccionados pelos
gnósticos no segundo, terceiro e quarto séculos, os quatro Evangelhos –
Mateus, Marcos, Lucas e João – foram escritos ainda no primeiro século,
sendo que dois deles foram escritos por dois dos 12 apóstolos de Cristo
(caso de Mateus e João) e um outro foi redigido conforme os relatos
ditados pelo apóstolo Pedro (caso do Evangelho de Marcos, o mais antigo
dos quatro). Lembrando ainda que quando os Evangelhos de Mateus, Marcos e
Lucas já circulavam, o apóstolo João ainda era vivo. Por essa razão,
esses foram os únicos Evangelhos aceitos pela Igreja Primitiva como
fidedignos. Irineu, de quem já falamos (que aprendeu de Policarpo, que
por sua vez aprendeu aos pés de um dos quatro evangelistas – João), cita
os quatro como os únicos verdadeiros. Ele os chama, em sua obra “Contra
as Heresias”, de “Evangelho Tetramorphon”, ou seja, o Evangelho
tetramórfico ou quádruplo.
Por sua vez, Orígenes (185-254dC), o mais destacado exegeta bíblico da
Igreja Primitiva grega, afirmou que Mateus, Marcos, João e Lucas eram os
únicos Evangelhos verdadeiros e escritos “pela inspiração do Espírito
Santo”. Ele ainda acrescenta que estes eram os únicos Evangelhos que, em
sua época (o terceiro século), eram aceitos por todos. Irineu afirmara o
mesmo no segundo século.
O papiro em evidência hoje é só mais uma tentativa da velha militância
do liberalismo teológico de tentar seduzir as pessoas incautas a não
crerem no que a Bíblia diz. Felizmente, será em vão, mais uma vez.
Veja, aqui, a tradução do papiro
"Evangelho da Esposa de Jesus", no site oficial de Havard.
Fonte: Redação CPAD News